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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Flamengo, um amor à distância



Maracanã Potiguar

Texto de Lucas Mesquita

Torcida Fla Natal

"O Rio foi seu berço, mas sua casa é o Brasil. Sua camisa vermelha e preta viaja de canoa pelos igarapés; galopa pelas coxilhas; caminha pelos sertões; colore todas as praias; está nos barracos das favelas e nas coberturas triplex. Quem é?", como disse o grande Ruy Castro nesse belo texto acima, o Flamengo é uma Nação, que tem torcedores em todos os estados do país, sendo maioria em vários deles, inclusive no Rio Grande do Norte, onde moro.
Há quem critique quem torça por clubes de outros estados: "Tanta gente torcendo pra um time de fora do estado. Isso é uma vergonha!", é o que alguns alienados dizem, mas perdoai-vos, eles não sabem o que é ser Flamengo, um clube que nasceu no Rio, mas que tem 80 % da torcida em outros estados e desperta paixões até de muitos estrangeiros. Motivo? Alguns dizem que foi a Rádio Nacional, que transmitiu para todo o país jogos memoráveis do Mais Querido, mas eu não. Digo que é paixão.
O Flamengo tem tanta torcida porque é o time que mais apaixona, que emociona. O Rubro-Negro não fica feliz só porque o time ganha, mas porque a torcida dá show. Como dizem por aí: "O Flamengo não é um time que tem uma torcida, é uma torcida que tem o time". É uma verdadeira Nação, que sem os torcedores de fora do Rio de Janeiro não seria tão grandiosa.



Enfim, não serei eu, um mero rubro-negro que acompanha o Flamengo de longe, mas torce como se estivesse no Maracanã, que irei explicar toda a paixão que esse clube desperta em milhões de pessoas mundo afora. Esse texto tem apenas o objetivo de mostrar como é torcer pro maior clube do mundo de tão longe, de um pequeno grande bar em Natal-RN, onde centenas de rubro-negros se reúnem uma ou duas vezes por semana para cantar e vibrar pelo nosso Mengão.





Assistir a um jogo do Flamengo a três mil km de do Rio de Janeiro é, sem dúvidas, diferente de ver na arquibancada do Maracanã. Já tive essa experiência, e posso dizer que nada se compara à emoção de cantar junto com a Nação no Maior do Mundo. O sofrimento, o nervosismo e a alegria, porém, não são muito diferentes. O rubro-negro do barzinho em Natal-RN não é menos apaixonado que o da arquibancada verde, não sofre nem comemora menos.

Acompanhar o time de tão longe às vezes é frustrante, porque vendo o show da torcida, sempre dá vontade de estar no Maracanã. Talvez por isso, o bar se transforme em uma espécie de "Maracanã Potiguar (do Rio Grande do Norte)". Centenas de rubro-negros, com camisas, faixas, bandeiras, bateria (repique e surdo) e bandeirão, cantam, gritam, xingam e vibram como se estivessem no estádio, como se os jogadores pudessem escutar. Tem até torcidas organizadas : Fla-Manguaça Botequim Natal e Flamigos.
Quando o time entrou em campo contra o Sport, no último sábado, a festa foi contagiante, como sempre. Todos cantavam no bar lotado. Tinha até imagem de São Judas Tadeu em cima da televisão. As centenas de rubro-negros fanáticos se espremiam nas cadeiras para pegar o melhor ângulo na TV, mas sempre passava um garçom na frente quando tinha algum lance importante.
Assim como no Maraca, existem vários tipos de torcedores. Os corneteiros começaram desde cedo. "Não era pro Caio Jr. escalar o Josiel", disse um deles, provocando a ira do anti-corneta: "Cala a boca, o jogo nem começou ainda e você já ta torcendo contra?". Tem o pessimista que vai logo dizendo que "Jogando essa bolinha não chega a lugar nenhum". O otimista vê tudo e percebe que o time ta jogando com muita raça, e que a vitória era iminente. Quase nada naquele primeiro tempo era unanimidade, só o pênalti claro no Juan que o juizão deu falta fora da área. "Ladrão safado!" foi a única expressão publicável dita naquele bar.
O intevalo chegou rápido, e todos aliviaram a tensão com muita cerveja e fizeram previsões sobre o segundo tempo. "Esse jogo está complicado. Os jogadores estão com muita raça e vontade de vencer, mas não estão conseguindo agredir o Sport, nem chegar perto do gol", era a análise geral, mas no fundo, todos acreditavam na vitória. "Uma hora o gol vai sair".
E o gol não demorou, mas saiu do lado errado. "Porra Bruno, engoliu mais um frango!", disseram quando nosso camisa um saiu do gol parecendo um bêbado na terça-feira de carnaval. Era o fim do sonho do hexa. Parecia que o caos estava instalado, mas não. Muitos palavrões depois, vieram os gritos de incentivo. Assim, como os 43 mil guerreiros que estavam no Maracanã, os pouco mais de cem apaixonados naquele distante bar continuaram acreditando, e torcendo muito.
A impaciência era enorme a cada passe errado, mas não maior do que o grito de gol quando nosso marrentinho que veste a camisa seis fez tabela genial com o herói que acabara de entrar em campo e tocou por baixo das pernas do magro goleiro do Sport, que não tomava gols a uma porrada de jogos. "Vamos Flamengo", "Oh Meu Mengão" e "Vamo virar Mengo" eram as únicas coisas que eu pensava naquele momento.
E o time foi pra cima, debaixo de um dilúvio, na raça e na vontade, empurrado pela maior e melhor torcida do mundo. No bar tinham os conformistas, que se contentavam com empate, mas a maioria tava gritando muito, e rezando pelo gol da virada. Ele tinha que vir. O Sport se recuava, tava vencido, tremendo de medo. Parecia uma criança com medo de um pitbull.
Então, no último minuto, a rede balança. Eu não vi nada, só fiz pular e gritar e subir na cadeira. Mesas caiam; cerveja voavam; pessoas se jogavam no chão. Era um milagre, o Mengão voltava a brigar pelo título. Só no replay vi que o gol foi do Vandinho no belo cruzamento do Marcelinho. "Foi o gol do título", gritava o profeta da mesa ao lado. E todos fizeram uma grande festa, daquelas que só a nação sabe fazer. "Que torcida é essa?".
No final do jogo a torcida foi pro meio da rua comemorar aquela vitória épica. Uma verdadeira escola de samba, com repique, surdo, pandeiro e tan-tan, foi formada, para desespero dos vizinhos. O anti-corneta xingava quem não tava acreditando no time, mas todos comemoravam juntos, como uma nação, aos gritos de "Dá-lhe, da-lhe, da-lhe Mengo, seremos campeões!"
Sábado que vem, grande parte desses rubro-negros estará em Recife, em mais uma invasão flamenga. Outros estarão em casa, ou em milhares de bares como esses, que existem no Rio, em Natal e até em Nova York ou Londres, e que se transformam em verdadeiros maracanãs quando o time mais apaixonante do mundo entra em campo.

Fonte: http://www.flamengo.com.br/portal//AgenciaFla/Flamengo-um-amor-a-distancia

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